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A nossa verdadeira natureza

Sábado, 26.12.09

 

Uma das coisas essenciais mais difíceis de adquirir é a capacidade de nos vermos como somos, a nossa verdadeira natureza. Toda a nossa história pessoal é uma sucessão de definições e características que nos colam desde muito cedo. Mesmo que todas as nossas células reclamem uma identidade própria e os neurónios dêem voltas e mais voltas para provar que não encaixamos nessa fórmula, a realidade exterior tem muita força. E acabamos por adaptar os nossos circuitos ao que nos revelam os espelhos sociais. Finalmente, acabamos por acreditar que os outros têm razão. Somos assim e assado, temos estas e estas características, são estas as nossas potencialidades.

 

Imaginem agora isto aplicado a um grupo, a uma comunidade, a um povo, a um país. Toda uma sucessão de histórias e lendas, livros e filmes, transmitidos até à exaustão para nos identificarmos com uma filosofia, uma cultura, uma forma de ver e de viver. Os grupos precisam de heróis e há sempre heróis disponíveis. Precisam de justificar a sua existência perante outros grupos. O seu valor, a sua importância, o seu poder. É uma questão de sobrevivência. Pelo menos tem sido assim até hoje. 

 

Agora olhemos para este rectângulo marítimo. Tal como o levaram até aqui. Acham que tem alguma coisa a ver com a sua verdadeira natureza de marítimo, por exemplo? Nada ou quase nada, a não ser na área turística e aí nem se respeita o lado marítimo, respeita-se o lado terrestre.

Há ainda pequenos oásis, praias ainda desertas, arribas ainda não habitadas. E outros locais citadinos onde se conciliaram as pessoas e o mar. Foi um desses locais que percorri recentemente, numa tarde subitamente amena, de sol muito claro e vento amigável no rosto.

 

Pensem um pouco nisto: havia alguma razão lógica ou plausível para um país com estas caracteristicas, um clima ameno, uma claridade única, uma costa em toda a sua extensão, configuração variada, terrenos férteis nalgumas regiões, expressão musical e poética, a começar na sua língua, a mais bela até hoje, entre tantas outras características... ser o mais pobre da Europa? Tão pobre mas tão pobre que nem se apercebe da sua própria pobreza? E tão pobre tão pobre que nem sabe o que é ser rico, verdadeiramente rico? Alguém tem de lhe mostrar.

Até aqui tentaram meter-lhe ideias de novo-riquismo na cultura, insuflar-lhe a mania da grandeza. O resultado está à vista: não há maior sinal de pobreza cultural do que o novo-riquismo. Também não se consegue empobrecer mais facilmente do que seguindo o novo-riquismo. 

 

O que é ser rico então? Verdadeiramente rico?

 

De todas as qualidades de se ser rico, a melhor para mim é a autonomia. Não o orgulhosamente sós de uma cultura fechada em si mesma, mas da confiança em si próprio que só pode surgir de se saber quem se é, de onde se vem e para onde se quer ir. A confiança em si mesmo de quem se conhece bem, as suas reais capacidades, e as utiliza para ser livre e para colaborar na sua comunidade.

É por isso que gosto muito deste texto de Francesco Alberoni. Aqui refere-se a algumas das primeiras iniciativas de cidadãos livres na Europa, os primeiros a libertar-se de dependências dos senhores feudais, e aqui podemos encontrar um paralelismo para actuais dependências, internas e externas. Aqui vai:

 

"Autonomia

Não deves contar com a ajuda dos poderosos, mas apenas com o teu trabalho, com as tuas capacidades, com aquilo que sabes fazer. Vive vendendo os teus serviços e os teus produtos no mercado. Foi este o grande ensinamento da Itália dos Comuns e, depois, do mundo protestante. Não procurar as prebendas eclesiásticas ou o favor de um príncipe. Não pedir seja o que for a ninguém. Desta forma serás um homem livre. Não pedir sequer esmola. Os Humilhados lombardos, ao contrário dos Franciscanos e Dominicanos, para poderem ajudar os pobres, trabalhavam como artesãos. É deles que irão aprender os protestantes luteranos e os calvinistas.

No mundo feudal o vassalo depende dos caprichos do senhor, o cortesão, dos humores do príncipe, o artista da corte, do mecenas. Só o artesão que trabalha na oficina com as suas próprias mãos, com a sua habilidade, não tem de agradar a um personagem colérico e caprichoso, esperar pelas suas decisões arbitrárias, respeitar os seus gostos. Cria e vende os seus produtos àqueles que o apreciam. Se o fidalgo da sua terra não os quer, vai oferecê-los a outras pessoas, noutro país.

A liberdade dos cidadãos de Florença, Veneza, Génova e, depois, de Amsterdão ou Lubeck, tinha como fundamento a sua capacidade para exportar para toda a Europa. Até ao século passado os literatos e os músicos só podiam desenvolver o seu trabalho se pertenciam a uma família rica, ou se trabalhavam na dependência de um senhor. Depois começaram a manter-se vendendo os seus livros no mercado. Foi este o verdadeiro fundamento da liberdade de palavra.

Porém, em muitos países, e também em Itália, a indústria manteve-se frequentemente agarrada ao poder político, para ter protecções, encomendas, ajudas. E o poder político concedeu-lhas em troca de dinheiro e de favores. Isto aconteceu antes do fascismo, durante o fascismo e também depois. Desta cumplicidade entre empresa e poder político nasceu a corrupção de Tangentopoli. Mas a parte mais vital do nosso sistema económico não pediu favores e privilégios, não participou em arranjos obscuros. Afirmou os seus produtos nos mercados internacionais.

Assim agiram os criadores do "made in Italy". A liberdade individual e colectiva foi mais uma vez garantida pela capacidade de fazer bem o seu próprio trabalho.  A todos os níveis: pelas empresas e pelos indivíduos.

Trabalhar, enriquecer as suas competências, é o património mais precioso do indivíduo. É o único verdadeiro fundamento da sua autonomia e da sua liberdade. Faça ele o que fizer: gerente, técnico, professor, artesão, operário ou profissional liberal. É um poder a que ninguém deveria renunciar. ... " (Alberoni, Francesco - Tenham Coragem. Bertrand Editora, 5ª edição, págs. 56-58)

 

Aqui começamos já a ver um grande obstáculo, e nem sequer vem do próprio cidadão, neste caso português. Toda a organização política actual, a sua filosofia e cultura, está orientada para a dependência: promove a dependência do cidadão obrigando-o desde logo a pagar impostos incomportáveis, impede-o de gerir o seu pequeno negócio com exigências irrealistas, sufoca a sobrevivência de pequenas empresas, endivida as gerações futuras, compromete a soberania do próprio país.

Este é actualmente o principal obstáculo à autonomia dos cidadãos, a uma vida livre e digna, à possibilidade de aspirar legitimamente à maior riqueza possível: organizar a sua própria vida.

E como numa fórmula matemática, temos já aqui identificada a principal causa da nossa pobreza actual: o poder político.

Segunda causa, a cultura que assimilámos ao longo de séculos e que agravámos nas últimas décadas: a megalomania, a ganância, o novo-riquismo, o chico-espertismo, a mesquinhez. Cultura agora elevada ao espectáculo espalhafatoso da confusão mais pobrezinha possível entre público e privado (um dia voltarei aqui com Alberoni) na exposição social, na televisão sobretudo, nos jornais e revistas, de toda a nossa mediocridade.

 

Se é um problema de elites? Não gosto muito deste conceito. Acho que é mais uma questão de modelos, de referências, de inteligência, de abertura mental, de uma nova consciência. Pessoas reais, não personagens ou marionetas sem alma. Sim, trata-se essencialmente de pessoas reais, com vida prática, viagens, empatia, afectos. Pessoas reais.

 

Além da autonomia, procurarei aqui analisar outras características da riqueza de um país. Que poderá estar ao nosso alcance, se tivermos a coragem de enfrentar a nossa realidade, a nossa situação actual, e as causas da nossa mediocridade. Não há outra forma de recuperarmos a nossa verdadeira natureza, a nossa identidade, a nossa dignidade.

 

 

Leituras relacionadas: De que políticos precisamos agora? e E de que visão de país precisamos agora?, no Vozes Dissonantes, esse cantinho que me acolheu durante dois anos de dissonâncias.

 

E ainda: Uma civilização em declínio a parodiar-se a si própria.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 12:36








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